Latin America Aero & Defence 2009. Um marco balizador de novos tempos para o mercado de defesa da América do Sul, corrigindo distorções históricas. Não é rearmamento, é recuperação. De tempo perdido.
LAAD 2009 apresentou um complexo resultado em cada campo, seja terrestre, marítimo ou aéreo. Para facilitar a análise de tantas informações, WEBASAS dividiu em partes este artigo. Nesta análise inicial, os leitores poderão acompanhar as mais importantes decisões no campo aeroespacial.
2-Modernização AMX A-1 (FAB) e AF-1(AN-MB)
Antes tarde do que nunca, talvez a melhor definição para a assinatura destes dois contratos. Informalidades a parte, o fato é que no caso da FAB, 20 anos de distorções na operação do caça tático AMX estão sendo finalmente corrigidas. Só para citar um dos problemas que afetava as capacidades da aeronave, os trilhos de mísseis de ponta de asa foram por duas décadas literalmente inúteis, já que não foi integrado nenhum míssil ar-ar ao arsenal do avião. A ausência de um radar multímodo acaba de ser ratificada com a assinatura do contrato de compra de 60 unidades do radar FIAR/Mectron SCP-01 Scipio, otimizado para funções ar-solo e ar-mar, mas também capaz de operar em modo ar-ar (autodefesa). O A-1 terá como armamento de curto alcance os mísseis MAA-1B Piranha, orientados por infravermelhos, da Mectron.
Outra deficiência da aeronave diz respeito ao seu motor, que começa a apresentar problemas na disponibilidade de peças de reposição, encarecendo a logística de manutenção do modelo. Quanto ao armamento disponível, uma das mais gritantes deficiências do avião, uma revolução acontece. A nova suíte aviônica, similar a utilizada no F-5 EM e A-29, facilitará sobremaneira a operação da aeronave, aliviando a carga de trabalho do piloto através de modernos mostradores digitais multifuncionais, comandos HOTAS (mãos no manete e manche) e sistemas digitalizados de comunicação rádio e datalink.
O novo equipamento designador laser que está sendo introduzido, de origem israelense, permite ao A-1 realizar ataques stand-off com bombas guiadas, e como o novo cockpit digital já virá preparado para o uso de NVG, os óculos de visão noturna Anvis transformarão a noite em dia para os pilotos de ataque da FAB. O radar multímodo tem papel crucial nas missões de ataque antinavio, um dos principais perfis de operação do A-1, permitindo programar os mísseis do tipo Exocet ou Harpoon com os últimos parâmetros de localização de seus alvos, além de prover orientação de meio curso para mísseis disparados por outro A-1, por exemplo.
Outra arma fundamental na modernização do A-1 é o míssil anti-radiação MAR-1, da Mectron. 100 unidades foram adquiridas pelo Paquistão, o que comprova a efetividade técnica do projeto. Armamento típico de emprego no primeiro dia de uma guerra aérea, o MAR-1 destrói radares guiando-se pelas suas emissões, deste modo limpando o caminho para outras aeronaves atacarem alvos de grande valor, enquanto a defesa aérea inimiga fica virtualmente às cegas. É um armamento estratégico, e na opinião deste jornalista, um dos principais a disposição do arsenal da FAB no momento. Já está anunciada a integração ao A-1 das bombas guiadas do fabricante brasileiro Britanite, semelhantes aos kits GBU-12 e GBU-16 adaptáveis para artefatos da série Mk-82 e Mk-84. Outra arma de fabricação nacional, a controvertida bomba cluster, também está confirmada na lista de armamentos do A-1.
Quanto ao estado das células, a modernização permitirá a padronização de determinadas diferenças entre os três distintos lotes de produção do A-1, que começou a operar na FAB em 1989. Como foi aprendido no programa do F5-EM, este processo demanda esmerado planejamento e está sujeito a muitos imprevistos. Deve-se comentar aqui que dez células não serão modernizadas, devido a problemas de estocagem em Santa Cruz, e servirão de fonte de peças de reposição e apoio a treinamento no solo. 43 aeronaves foram contratadas para esta modernização, tendo a EMBRAER como principal integradora e a Elbit/Aeroeletrônica como empresa associada ao programa.
Equipado com um radar eficaz, aviônica digital no estado da arte, sensores como FLIR, telêmetro laser e dotado de um eficiente datalink, e principalmente, equipado com armas capazes de lançamento à distância, o A-1 se transformará numa dor de cabeça terrível para seus possíveis adversários. Pequeno e veloz, habilitado a voar grandes distâncias e de ser reabastecido em vôo, o AMX pode destruir com eficácia alvos como usinas hidrelétricas, pontes, pátios ferroviários, refinarias, centros de comando, depósitos de suprimentos, bases aéreas, e mesmo atacar forças navais inimigas, tanto em águas azuis quanto na faixa litorânea.
No caso da modernização da Marinha para seus caças AF-1 Falcão, o padrão a seguir será o mesmo da modernização do A-1, com diferenças no radar, provavelmente um modelo israelense focado em missões ar-mar, e em alguns detalhes de equipamento específicos de aviões navais. Os sistemas de aviônica dos AF-1 serão completamente modernizados, juntamente com a revitalização estrutural das células e revisão completa de motores e acessórios. Mísseis já operados pela Marinha Brasileira, como o Exocet, poderão fazer parte do arsenal do pequeno jato, em suas versões aerolançaveis. Capacete integrado a visor designador de alvos, mísseis de curto e médio alcance e sistemas de contramedidas eletrônicas ativas e passivas complementam o pacote.
A frota de AF-1 será reduzida a 12 exemplares (09 monoplaces e 03 biplaces) modernizados, dos 23 adquiridos no Kuwait. Se cumpridas todas as metas em termos de equipamentos, aviônica e armamento, a Marinha do Brasil passará a contar com um eficaz avião de ataque, e relativamente capaz de missões de interceptação, se equipado com mísseis BVR. Importante que se diga que a Marinha compreende a necessidade de um vetor de AEW&C para operar embarcado, em parceria com os AF-1, provendo a cobertura radar e a consciência situacional dos caças frente a um amplo leque de ameaças. Estudos já foram iniciados de modo a dotar o porta aviões São Paulo com um grupo de comando e controle aerotransportado, equipado com aeronaves do tipo Tracker P-16 convertidas para motores turbo hélice e equipadas com o sistema digital sueco Erieye, o mesmo modelo de radar dos EMBRAER E-99A do Esquadrão Guardião (2º/6ºGAV).
Itens importantes, como geradores de oxigênio a bordo (OBOGS), novo sistema de controle ambiental e a completa revisão das táticas e doutrinas de emprego certamente trarão de volta para os A-4K Skyhawk a letalidade que a aeronave não oferecia em sua configuração atual, que além de ser completamente analógica, só permitia ao modelo carregar bombas “burras” e disparar obsoletos mísseis ar-ar AIM-9 Sidewinder de geração anterior. Traduzindo, o AF-1 servia única e exclusivamente para treinamento e manutenção da proficiência das tripulações navais em operações embarcadas, sem oferecer efetividade como sistema de armas, devido à defasagem tecnológica. Mas se enganam aqueles que julgam que a Marinha do Brasil ficou parada no tempo.
As poucas aeronaves mantidas em condições de vôo permitiram a Aviação Naval formar certa quantidade de aviadores de asas fixa, mesmo que em pequeno número, e as operações conjuntas com a FAB aprimoraram técnicas de reabastecimento em vôo (a marinha não dispõe de aeronave cisterna) e mesmo permitiu o conhecimento de novas táticas, procedimentos operacionais, etc. Com a modernização, este seleto grupo de oficiais aviadores navais, qualificados e confirmados em operações de pouso e decolagem no convés de um porta aviões, muito bem treinados e equipados, certamente poderão voar os AF-1 no máximo de suas possibilidades como avião de ataque.
Uma observação importante diz respeito ao emprego do A-4 como interceptador. Este avião é subsônico, não conta com pós combustor em seu reator, portanto desenvolve baixa velocidade. E, apesar da sua extrema manobrabilidade e de ser um delta com cauda convencional capaz de levar grandes cargas, o fato é que o AF-1 não foi projetado para este tipo de missão, mesmo se dotado de radar moderno e usando mísseis de médio e curto alcance. A Marinha do Brasil ainda procura o seu caça de defesa da frota. Uma solução de baixo custo poderia ser a compra de células usadas das versões C e D do F/A-18 Hornet mais antigos, e sua posterior modernização no Brasil para o padrão F5-EM de aviônica, retrofit estrutural e compatibilização da aeronave com a catapulta e aparelho de parada do NAe São Paulo. Obviamente, tal cenário ganharia mais probabilidade de acontecer caso o Super Hornet F18-E/F vença a concorrência do FX-2 da FAB. Mas permanece a certeza, o AF-1 não é um interceptador. Ele é excelente no combate aéreo aproximado, mas seu emprego mais eficaz é como aeronave de ataque, sem dúvida.
Veja nesta segunda parte, fotos da assinatura dos contratos do A-1 e do AF-1, em cerimônia na LAAD, e algumas das novas armas que devem equipar as versões modernizadas destas aeronaves de combate brasileiras e todo o clima e o ambiente que cercou o evento.
Texto e Foto: Roberto Caiafa, Jornalista WEBASAS
3 – FX2, a hora da verdade se aproxima
Muito já se escreveu sobre o FX-2, concorrência que escolherá o novo caça de combate de primeira linha da Força Aérea Brasileira. Publicações impressas já torraram centenas de bobinas de papel em especulações sobre quem tem mais chance de vencer esta disputa. WEBASAS, em respeito ao leitor, analisa a questão de outro ponto de vista. A pergunta hoje é “O que teríamos em mãos, no caso da vitória deste, daquele ou do outro?”
Rafale F-3
Conseguindo sua primeira venda de exportação para a Líbia de Khadafi, o Rafale segue com fortes chances de ser o escolhido, na versão F-3. O acordo de cooperação militar tecnológica assinado entre o Brasil e a França, em 2008, no entanto, não fez referências à aeronave, apesar de incluir no pacote a construção de submarinos convencionais de ataque, a construção de base naval capaz de operar submarinos nucleares e a abertura de linha de montagem de 50 helicópteros Eurocopter EC 725 (Helibrás, Itajubá), a serem distribuídos entre as três forças singulares.
Os franceses anunciam acesso irrestrito aos códigos fontes dos sistemas da aeronave, independência na hora de se integrar novas armas ao avião, hoje em desenvolvimento na Europa, como os mísseis MBDA Meteor e Iris-T, para combates aéreos, ou os SCALP-EG e Storm Shadow, para ataques stand-of a alvos de grande valor estratégico. Muito se fala e se promete, na hora de vender algo. Mas a prática nem sempre combina com o discurso. Basta lembrar o quão difícil e oneroso foi para a FAB manter a linha de suprimentos do Mirage IIIE por mais de trinta anos, com partes do avião, mesmo defasado tecnologicamente, tendo de ser enviadas para a França para serem manutenidas por técnicos da Dassault, o que causava baixos índices na disponibilidade de aeronaves na rampa, prontas para combater. Não podemos repetir este modelo, de modo algum.
A aeronave ainda tem de se provar capaz. Seu radar RBE2 AESA (em desenvolvimento) mal começou a ser integrado aos Rafale F-3, a versão definitiva do caça. Eliminada de outras concorrências justamente pela falta deste sensor, a aeronave corre contra o tempo, haja visto que o Super Hornet já apresenta radar de escaneamento eletrônico ativo operacional, e o Gripen encontra-se a um passo de fazê-lo na versão NG. Não podemos aceitar uma aeronave menos qualificada, e as facilidades de manutenção devem ser locais, de amplo domínio da FAB e de seus técnicos especialistas. Independência é isso, ter o domínio completo do avião.
Quanto às armas do Rafale, o caça apresenta um bom mix de mísseis de médio e curto alcance (MBDA MICA EM e MBDA MICA IR) capazes de abater aeronaves inimigas a grandes distâncias, e lista entre suas armas de ataque ar-solo e ar-mar os mísseis Matra Apache e MBDA Exocet de nova geração. Armamentos de fabricação brasileira podem ser integrados a aeronave, mas com o dispêndio de custosos ensaios de compatibilidade armas/avião. O fabricante se compromete a prover total apoio neste tipo de operação, mas deve-se ter em mente que a prioridade dos franceses, assim como a de suecos e americanos, é vender as suas armas homologadas para equipar o avião, e não modificá-lo para levar armas de terceiros.
A favor, o Rafale tem o fato de ser uma aeronave de múltiplo emprego, que dispõe de versão navalizada e capaz de operar (com restrições de peso) no Nae São Paulo, o que permitiria a Marinha do Brasil obter o seu tão desejado caça de defesa da frota, missão que certamente o AF-1 não cumpre com a efetividade e letalidade requeridas. Os franceses estão esperançosos de que uma compra brasileira sinalize para outros países sul-americanos o caminho a ser seguido (especialmente Argentina, Peru e Colômbia) na substituição dos antiquados delta Mirage III, 5 e 50 e mesmo dos caças Kfir, de origem israelense, operados na região.
Gripen NG
O menor dos finalistas apresenta as mais avançadas capacidades de conectividade e está completamente pronto para atuar num cenário de guerra centrada em rede. O datalink sueco é o melhor existente atualmente, e a aeronave apresenta diversas características de um caça de 4ª geração advanced, sendo capaz de prover ao seu piloto elevada consciência situacional e amplo domínio do cenário tático. Seus sensores, começando pela versão AESA do radar PS-01, permitem ao piloto explorar táticas que maximizam o emprego do Gripen dentro de um conceito totalmente on-line de condução de uma guerra.
Sendo monomotor, o caça apresenta o menor custo de hora de vôo, e sua manutenção modular, pensada para ser executada por soldados recrutas prestando serviço militar obrigatório, facilita o turn around e a devolução da aeronave ao combate. Capaz de operar em pistas curtas, e de ser disperso por bases improvisadas, o Gripen maximiza sua letalidade usando seus sensores ligados em rede. Um Gripen em vôo é capaz de plotar posições de SAM e AAA inimigas, e na seqüência, enviar via datalink estas informações para outros Gripen no ar ou no solo, centros de comando e controle, aeronaves AWACS, navios e veículos terrestres, tudo em completo silêncio rádio, permitindo a rápida destruição destes alvos.
Um forte diferencial a favor do Gripen é o fato de que diversos armamentos que interessam a FAB já estão integrados a aeronave, ou em processo de homologação. A venda do Gripen para a África do Sul facilitou a integração de armamentos de procedência israelense, já que a DENEL, empresa sul-africana, é parceira tecnológica das empresas Rafael, IAI e Elbit, dentre outras. Mísseis como o Python 5 ou o Derby já se encontram homologados para o Gripen, assim como os kits de bombas guiadas Spice 1000 e 2000. O A-Darter, míssil ar-ar de quinta geração, hora em desenvolvimento, é mais um artefato que pode ser empregado pelo Gripen. Como seu projeto está sendo desenvolvido em parceria com o Brasil, a FAB já poderia equipar seu novo caça, de imediato, com este armamento, assim que o mesmo estiver disponível. Esta é uma vantagem que não pode ser desprezada.
Contra o Gripen pesa o fato de ser um caça de curta autonomia e de estar recheado de componentes de procedência americana, em destaque o motor Volvo RM-12, uma versão do GE F-414 que equipa o Super Hornet, o que poderia causar indisponibilidade de material em caso de embargos internacionais ou restrições políticas de primeira ordem. Mesmo dotado com sonda de revo, a questão do alcance, em termos de Brasil, é crítica. Se os novos CFT (conformal fuel tank) cumprirem a promessa de aumentar a autonomia da aeronave, sem perda das capacidades de carga paga e manobrabilidade acima da média, então as chances da aeronave podem ser consideradas muito boas, ainda mais se colocarmos na balança que o Gripen é o concorrente com menor custo unitário de aquisição, um dado importante.
Super Hornet F-18E/F, a aposta do Tio Sam
“Operacional, provado em combate, disponível e liberado pelo Congresso Americano para venda ao Brasil com pacote de armas, logística e treinamento completo”. Assim Bob Gowler, Vice-Presidente do Programa Super Hornet na Boeing, definiu a oferta americana na concorrência FX-2. Surpreendente, pois demonstra uma virada na estratégia americana para a América do Sul, e em especial, para o Brasil. Mas esta boa vontade não ocorre por acaso.
Durante décadas, os americanos se recusaram a vender armamentos de ponta para o Brasil, o que teve como conseqüência a busca por fornecedores europeus. Mais recentemente, os EUA assistiram inertes os israelenses dominarem boa parte do mercado de defesa sul-americano, principalmente no lucrativo setor de modernização e upgrades de aeronaves de combate. A FAB só teve acesso a dispositivos realmente modernos para equipar seus caças depois de adotar as soluções da indústria militar israelense. O salto tecnológico, doutrinário e operacional foi tremendo. Saímos de perfis de operação quase suicidas, calcados em bombas burras e sobrevôo do alvo (quase uma volta à segunda guerra mundial), e passamos a operar com sensores modernos como pods designadores laser, radares embarcados multímodo, datalink digital; também obtivemos armas high-tech como bombas guiadas a laser ou infravermelho, mísseis ar-ar de médio alcance dotados de radar ativo, pods de guerra eletrônica, etc.
Abandonamos o tacape e compramos alguns sistemas que, mesmo em pequenas quantidades, permitiram a FAB recuperar o tempo perdido, o suficiente para formar uma massa crítica de pilotos de primeira linha familiarizados com as novas doutrinas e táticas de combate da moderna guerra aérea. Mas o ciclo não está completo. Recuperamos parte de nossa capacidade dissuasória reformando aeronaves antigas (uma legítima meia sola) para o estado da arte. Isto permitiu reduzir o gap tecnológico e trazer a FAB para mais perto do seu modelo ideal de operação. Falta agora um caça moderno, um sistema de armas completo, avião, sensores, armas, treinamento, elevação doutrinária e operacional, tudo em um pacote fechado, único, pelos próximos trinta anos.
O Super Hornet pode ser a resposta. A Boeing tem reafirmado várias vezes que o caça oferecido ao Brasil será o mesmo operado pela US Navy (block II), dotado de radar AESA APG-79, mísseis BVR AMRAAM AIM-120C e WVR AIM-9X Sidewinder, sensores de autodefesa, uma completa suíte aviônica no estado da arte, e equipado com armas como os mísseis antinavio Harpoon, bombas guiadas por GPS JDAM e mísseis stand-of. No quesito treinamento, a US Navy se compromete a prover todas as facilidades necessárias a formação das primeiras turmas de pilotos brasileiros qualificados no Super Hornet. Pilotos de uma força aérea treinando em instalações de uma marinha (a 4ª maior força aérea do mundo, apenas), um cenário no mínimo surpreendente, mas não inédito, basta relembrar os Cardeais treinando com os P-16 Tracker em navios da US Navy, nos idos dos anos 60...
Mas nem tudo são flores. Os americanos não jogam para perder, mas certos hábitos não mudam. O DoD (Departamento de Defesa) americano já manifestou várias vezes à determinação em não abrir os códigos-fonte do Super Hornet para o Brasil e, aliás, para ninguém. Os australianos já sentiram isso na pele, operadores de Super Hornet que são. As compensações comerciais de off-set oferecidas em nenhum momento falam de abertura dos códigos, mas sim de parcerias em projetos aeronáuticos desenvolvidos no Brasil (leia-se EMBRAER) e da cessão de tecnologias que ainda não dominamos completamente, como componentes de fibra de carbono e kevlar de grandes tamanhos, integração de sensores avançados e pesquisa e desenvolvimento de propulsores e sistemas correlatos.
O que significa duas coisas, primeiro que não teremos domínio completo de todo o ciclo do caça, o que pode ser traduzido por dependência dos humores de Washington, e segundo que teremos imensa dificuldade (custos) em integrar qualquer armamento nacional ou de terceiros ao avião. Como citado anteriormente, não é do interesse americano fornecer o avião para ser equipado com armas de outras procedências que não dos EUA. É uma forma brilhante de manter sob rédea curta o crescimento das capacidades da FAB. A opção Super Hornet, excelente em termos de equipamento, tem como inconveniente político ficarmos atrelados por 30 anos a uma aeronave que não será nossa 100%.
Por outro lado, as facilidades de treinamento, logística contratada, disponibilidade de peças de reposição e, importante, o financiamento da compra por parte dos EUA, é imbatível. Nenhum dos outros concorrentes pode oferecer um pacote tão completo por um valor tão diluído, ao longo de três décadas de operação, garantidas pelo fato de a própria US Navy garantir a operação e suporte ao modelo até bem depois de 2025. Um tabuleiro de xadrez complexo, onde cada mexida, se não for bem pensada, pode travar todo o jogo. Adicionalmente, podemos lembrar aqui que o Super Hornet é um caça naval, estando pronto para operar no NAe São Paulo (com restrições de peso de decolagem e pouso) se o governo brasileiro resolver comprar unidades adicionais para a Marinha do Brasil, que teria assim, o seu tão sonhado caça de defesa da frota.
Estes são os finalistas, e agora a fase final, conhecida como BAFO (Best And Final Offer) definirá o vencedor. Análises técnicas das instalações industriais, bases e unidades operadoras dos jatos concorrentes tomaram todo o mês de março e parte do mês de abril, sendo que cada avião foi voado por equipes de pilotos e técnicos da FAB, além dos tradicionais voos de propaganda oferecidos para publicações impressas do Brasil que contam com ex-pilotos militares em seus quadros (leia-se Revista Força Aérea).
Tudo para que em 2014 possamos ver alinhados no pátio de Anápolis os novos exemplares da ave de rapina principal da FAB. Rafale, Gripen ou Super Hornet, façam suas apostas!